Resenha do livro de Dostoiévski: duas narrativas fantásticas.
Fiódor Dostoiévski (1821-1881) foi um dos maiores nomes da literatura russa, conhecido por suas obras que exploram a psique humana em suas profundezas mais obscuras. Nascido em Moscou, Dostoiévski teve uma vida marcada por tragédias e sofrimentos, que se refletem em seus romances e contos.
Juventude e influências:
- Influenciado por autores como Pushkin, Gogol e Shakespeare.
- Frequentou a Academia de Engenharia Militar e se dedicou à literatura posteriormente.
- Início da carreira com contos psicológicos, como "O Duplo" e "Noites Brancas".
Prisão e exílio na Sibéria:
- Condenado à morte por participar de um grupo político radical em 1849.
- Pena comutada para trabalhos forçados na Sibéria por quatro anos.
- Experiência transformadora que influenciou sua visão do mundo e de seus personagens.
Retorno à literatura e sucesso:
- Publicação de "Memórias da Casa Morta" (1862), relato de sua experiência na Sibéria.
- Obras-primas como "Crime e Castigo" (1866), "O Idiota" (1868), "Os Demônios" (1872) e "Os Irmãos Karamazov" (1880).
- Exploração de temas como o bem e o mal, a fé e a dúvida, a culpa e a redenção.
Duas Narrativas Fantásticas:
- Publicadas em 1877, no periódico "Diário de um Escritor" [1].
- Compostas por:
- "A Dócil": história de um homem atormentado pelo suicídio de sua jovem esposa.
- "O Sonho de um Homem Ridículo": narrativa fantástica sobre um homem que pensa em suicídio e acaba sonhando estar em outro planeta.
Gênero da escrita: ficção
Estilo literário de Dostoiévski: Fiódor Dostoiévski foi um representante do realismo russo. Assim, suas obras, além de características do estilo, apresentam também: Objetividade. Ausência de idealizações.
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Minha opinião a cerca do livro: as frases mais marcantes
" A dócil": "Cega, cega! Está morta, não ouve! Você não sabe com que paraíso eu teria te cercado. O paraíso estava na minha alma, eu o teria plantado em volta de você! Bem, você não me amaria—e daí, o que importa? Tudo seria assim, tudo ficaria assim. Faria confidências apenas para mim, como amigo—e então ficaríamos alegres, e riríamos alegremente, olhos nos olhos. Viveríamos assim. E se você se apaixonasse por outro—e daí, e daí! Iria com ele, rindo, enquanto eu olharia do outro lado da rua... Ah, fosse o que fosse, contanto que ela abrisse os olhos uma única vez! Por um só momento, um só! que me lançasse um olhar, assim como ainda há pouco, quando estava diante de mim e jurava que seria uma esposa fiel! Ah, num único olhar ela teria entendido tudo!". Aqui há alguém dependente ou que ama incondicionalmente alguém? Ele diz de maneira ruim que vai ficar sozinho, mas talvez ele esteja passando por uma das fases do luto: a negação. Vou dizer aqui a diferença entre amor, apego e dependência emocional. de acordo com a teoria do antropólogo John Allan Lee, existem seis estilos de amor:Ágape: amor altruísta e incondicional;
Eros: amor apaixonado, seguro e com atração física imediata;
Ludos: amor visto como um jogo, marcado pela sedução e liberdade sexual;
Mania: amor instável, obsessivo, ciumento e possessivo;
Pragma: amor pragmático, o parceiro escolhido deve ter determinadas características para ser amado;
Estorge: amor que se desenvolve lentamente a partir de uma amizade.
Portanto, em um relacionamento, Eros é o que deveria mais se aplicar. "Amor é um estado psicológico de entrega que inclui paixão, desejo, admiração e cuidado com o outro." apego emocional que funciona como uma forma de prisão, limitando o comportamento, impedindo o crescimento pessoal e até gerando um transtorno de personalidade dependente.No entanto, uma pessoa pode se apegar a outra mesmo que não seja dependente. "As pessoas que se apegam temem apenas ter o ego ferido por algum abandono ou desprezo. Essa formação psicológica chega a ser delirante, pois a pessoa está apegada a algo que se soltar não lhe fará falta ou até lhe fará mais feliz", a dependência emocional é classificada como uma necessidade invasiva e excessiva de ser cuidado, que leva a um comportamento submisso. Então, o que o protagonista estava sentindo? Eu diria que apego emocional, porque mesmo que a situação seja muito ruim, ele não queria se desfazer por causa de algum resquício de esperança e idealização que tinha pela jovem, e também porque ela o havia traído, então ficou com o ego ferido e tentou justificar a si mesmo de que estava a amando e que também poderia ser amado, ficando estagnado naquela relação, desesperado por afeto ( de modo que ele mesmo diz que não se importaria com o fato dela amar outra pessoa, não sendo tratado como prioridade), e quando ela morreu, talvez tenha percebido mesmo que em uma situação de agrura, que ela não o amava.
O sonho de um homem ridículo: "Passei a perceber e a sentir com todo o meu ser que diante de mim não havia nada. No começo me parecia sempre que, em compensação, tinha havido muita coisa antes, mas depois intuí que antes também não tinha havido nada, apenas parecia haver, não sei por quê. Pouco a pouco me convenci de que também não vai haver nada jamais. Então de repente parei de me zangar com as pessoas e passei a quase nem notá-las." O que seria não haver nada? Essa é a grande questão....todos temos algo dentro de si, seja uma emoção predominantemente ativada com experiências, seja desenvolvendo um hobiie e procurando saber quem é de verdade. A realidade é que não nascemos sabendo quem somos, nossa identidade é construída a partir de atividades empíricas, de experiências únicas de cada indivíduo, cultura, condicionamento, ambiente social e também vai depender da fase em que o indivíduo está. Então a pergunta é: quanto tempo leva para o indivíduo criar sua identidade? Marcia (1966) [2] apresenta duas dimensões essenciais na formação de qualquer identidade pelo adolescente: uma crise ou exploração e um comprometimento ou compromisso.Por crise ou exploração, Marcia (1966) entende o período de tomada de decisão, quando antigos valores e antigas escolhas são reexaminados, podendo ser de forma tumultuada ou ocorrer gradualmente. Na segunda dimensão, comprometimento ou compromisso, Marcia (1966) supõe que o indivíduo tenha realizado uma escolha relativamente firme, servindo como base ou guia para sua ação. O resultado desejado da exploração é o comprometimento com algum papel específico, alguma determinada ideologia. O comprometimento é medido pelo grau de investimento pessoal que o indivíduo expressa (Marcia, 1966, 1967). Os compromissos correspondem às questões que o indivíduo mais valoriza e com as quais mais se preocupa, refletindo o sentimento de identidade pessoal. Kimmel e Weiner (1998) [3] resumem os compromissos com que as pessoas estão implicadas em três atitudes: atitudes ideológicas (valores e crenças que guiam as ações); atitudes ocupacionais (objetivos educativos e profissionais); e atitudes interpessoais (orientação de gênero que influencia as amizades e relacionamentos amorosos). Talvez o que o personagem tenha seja uma crise de identidade. As crises de identidade ou existenciais se referem a um momento de mudança que, afirma Morán, “pode ser marcado pela própria pessoa ou por uma circunstância externa”. Tratam-se de situações que “produzem incerteza e ansiedade, mas também dão oportunidades”, acrescenta. Normalmente, se relacionam a momentos importantes da vida, como relações de casal, filhos, trabalho ou saúde, afirma o psicólogo clínico Jorge Barraca: “É uma reformulação dos temas vitais, apesar de a crise partir de uma questão concreta [...]". Então nesse caso, o personagem está tentando decidir algo importante , como determinar se há algo dentro de si o que fazer em relação a isso, mais tarde na leitura você verá que ele sentirá uma necessidade de se matar. O que reforça a ideia de ser uma decisão muito importante e que seu inconsciente ao mostrar aquele sonho, o fez ter novas perspectivas a cerca da vida dele como um todo.
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Obs:
[1]_Coluna mensal publicada por Fiódor Dostoiévski entre 1873 e 1881, ano de sua morte.
- Inicialmente publicada na revista "O Cidadão", depois em um periódico próprio.
- Compilação de textos variados:
- Reflexões sobre a vida e a sociedade russa.
- Críticas literárias e sociais.
- Análises de eventos contemporâneos.
- Contos e ensaios originais.
[2]_ Em 1966, a psicóloga americana James Marcia publicou um artigo inovador que revolucionou a compreensão do desenvolvimento da identidade na adolescência. Seu trabalho, intitulado "Identidade e Desenvolvimento do Ego", propôs um modelo teórico que ainda hoje é utilizado por psicólogos e educadores para entender como os adolescentes constroem sua identidade.
[3]_ são os autores do modelo de desenvolvimento da identidade na adolescência, publicado em 1998. O modelo propõe que a identidade do adolescente se forma através de três tipos de atitudes: Atitudes ideológicas; Atitudes ocupacionais; Atitudes interpessoais.
Faz uma resenha sobre o livro "DEMÔNIOS" do Dostoiévski
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